segunda-feira, 21 de setembro de 2009

[Capítulo Final] Escolhas

Estavamos frente à porta quando Mei me entregou a TPM dela e disse: "Você irá fazer mais bem uso dela do que eu, não consigo mirar direito e não pretendo matar vocês". Checamos nossas munições, haviam 12 balas de TPM, 4 de shotgun e meia caixa de handgun. Estaríamos com problemas caso encontrassemos com aquela criatura novamente, alias, mesmo uma horda de mortos poderia nos dizimar facilmente. Não queria pensar nessas hipóteses agora, de que adiantaria ficar trancada em uma sala enquando o virus se apodera de meu organismo?

Abri a porta com força e empurrei cerca de meia dúzia de mortos ao chão, Kevin estava ao meu lado com a shotgun apontada, queria acertar o maior número possível de zumbis para abrir caminho e correr. Kevin disparou e vários mortos foram arremessados, ainda havia muitos, seria possível sobreviver? Mei respondeu minha pergunta apoiando-se em nossos ombros e jogando-se contra os mortos em uma voadora que abriu o caminho.

- Acho que ainda tenho força para isso - Disse dando um sorriso. Seus olhos estavam de um amarelo-avermelhado e olheiras negras apoderavam-se dela.

Kevin deu mais um disparo abrindo caminho entre a legião e corremos escadas acima onde possivelmente deixara cair a maleta com o antivirus. Mei tropeçou em um degráu e ali ficou vomitando, abeixei e segurei-a no ombro e corri mais e mais degráus acime, ouvi mais um disparo. Logo chegamos ao piso superior e Kevin chegou logo atrás em pánico.

- São muitos, não temos muito tempo!

Olhei ao redor e por um momento nada ví, quando ao bilho da luz de emergência consegui enxergar a maleta, deixei Mei com Kevin e corri pelo corredor e agarrei a maleta. Kevim e Mei vieram logo atrás, seguimos aos tropeços para a maior sala, entramos e fechamos a porta. A sala era grande e haviam diversas mesas espalhadas pelo ambiente, barras de ferro grossas encontravam-se no teto onde se alocavam as lâmpadas locais, o chão era liso e bem enceirado. Diversas mãos embaçavam o vidro da porta, estavamos encuralados, havia outra porta na outra extremidade da sala também fechada, com dezenas, centenas de mortos atrás dela esperando por um deslize qualquer para saborear nossa carne. Estava em estado de choque, sentei no chão e abri a maleta, haviam os mesmos dois frascos de antes. Vírus e antivírus. Verde e azul.

- Existe apenas uma dosagem... - disse com frieza.

A sala encheu-se de silêncio, Kevin não ousaria quebrá-lo. Mei era a única que possuía o direito de dizer algo e mesmo assim, a maleta havia sido descoberta por mim, era minha. Era minha escolha. Enquanto pensava Mei leu meus pensamentos e disse:

- Você a encontrou, é sua.

- Não é tão simples assim... Mei, você tem mais chances de sobreviver, e eu... eu sou uma inútil - disse com pesar.

- Não! Sem você estaríamos todos mortos.

Não havia muito tempo, em menos de meia centena de minutos Mei estaria morta e iria querer nossa carne como conforto. Não podia escolher tão facilmente, Mei salvou minha vida, não podia abandonar o Kevin e acima de tudo, não queria morrer, se é que pode-se chamar isso de morte.

Abri a maleta, segurei o antivirus e coloquei-o na seringa, enquanto realizava o processo começei a sentir o chão tremendo, o que seria? Ainda faltava mais de uma hora para a cidade ser higienizada. Prendi a respiração, pois sabia o que me aguardava. Em um segundo a porta foi arrancada e a criatura, aquela criatura de antes entrava na sala, tudo parecia ficar em câmera lenta e em um segundo eu sabia o que fazer. Corri até Kevin que estava paralizado de horror, e tomei-lhe a shotgun, pelas minhas contas ainda haveriam duas balas. Segurei Mei pelo braço e apliquei o antivirus e logo em seguida a arremessei com toda a força que tinha para debaixo de uma mesa, Mei deslizou exatamente como queria. Enquanto me movimentava a criatura entrava pela sala junto com a leva de mortos-vivos.

- Kevin! - Gritei

Kevin entendera exatamente o que queria, pegou a handgun e disparou contra os zumbis mais próximos, de baixo da mesa Mei disparava com sua TPM na criatura gigante distraindo-a. Peguei a shotgun, mirei na ponta esquerda da barra de ferro e atirei. Acertei em cheio, a barra deslocou-se com um tremendo barulho metálico, esquivei da barra me jogando ao chão e segurando a maleta, a barra acertou o peito da criatura rasgando-a ao meio, o chão encheu-se de sangue. Junto com ela mais dois zumbis sucumbiram ao ataque. Mais mortos entravam na sala, com a shotgun disparei contra eles meu último tiro e arremesei-os ao chão com o estrondo do disparo que me deixou surda.

- Agora! vamos! - Corri e peguei Mei pelo braço, podia notar que as órbitas negras já estavam se desfazendo - Kevin, vamos!

Corremos por meio as criaturas, Kevim batia contra os que se levantavam e dava para ouvir cada osso se quebrando: Crek, crek. Finalmente conseguimos sair para o corredor, subimos as escadas o mais rápido que podiamos, estava cansada. Nunca reparei quantos degráus haviam em cada lance como agora eu o fazia. Chegamos ao décimo quinto andar e ao olhar para trás via a horda de mortos subindo as escadas em frenesi. Tinha que ser rápida, e não havia outra escolha, já que de qualquer forma eu morreria.

- Kevim vai! Eu distraio eles.

- Não vamos te deixar! - Gritou Mei num soluço.

- Não há escolha, vão!

- Selly... - Repetiu Kevim com pesar.

Os mortos estavam próximos e queriam a nossa companhia, não havia tempo. Corri até Kevin e beijei-lhe a boca. Olhei para Mei com lágrimas nos olhos e disse:

- Se cuida.

Mei me puxou para junto de sí e beijou também minha boca, estava em choque. Além de morrer teria que conviver com o fato de minha alma ir para o inférno por sodomismo? Não importava, era bom. Eu amava tanto Kevin quanto Mei e tudo isso em tão pouco tempo, acho que enfim amamos mais facilmente quando dependemos das pessoas... Essa seria a famosa "humanidade"?

- Vão - Repeti ao vê-los correndo escadas acima, meus olhos lacrimejaram, mas afastei-as com as mãos, não era hora de lamúrias.

Arremessei a shotgun a cara de uns mortos que estavam mais próximos e corri em direção às salas que existiam no andar, centenas de mortos me seguiram e isso parecia mais um jogo do que minha vida em sí. Entrei na primeira sala à esquerda, ao entrar tranquei a porta. Era um escritório simples, a porta era de madeira e não aguentaria muito tempo, havia uma escrivaninha larga e pesada na cor tabaco, empurrei-a contra a porta, isso me daria mais alguns minutos. A sala não tinha mais do que três por três metros quadrados, na parede esquerda tinha um armário simples da mesma cor da escrivaninha. Encostei na parede e esperei a morte, algo nessa hora me remetia ao meu encontro com Kevin, era uma situação parecida, a diferença era que desta vez não haveria nenhum herói para me salvar.

Encostada na parede gélida ficava observando a maleta, vírus e antivirus, verde e azul. Enfim encontrei minha luz no fim do túnel.

[Fim]